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domingo, 1 de novembro de 2015

Projeto Lendo Clarice (21 de outubro)

Continuamos lendo Clarice!!!
Agora estou lendo o "A Cidade Sitiada", e como toda Clarice, dói. Mas na verdade não estou vindo aqui falar sobre o livro e nem sobre a leitura dele, deixemos esse assunto pra quando eu terminar de lê-lo.
Na verdade, hoje eu estou vindo aqui pra falar que esse projeto que surgiu lá no blog da Ana, está se espalhando de um jeito... Outro dia mesmo a Bárbara me lincou lá no blog dela falando que também está lendo, mas o que mais me deixou de boca aberta é que a criançada e as escolas aqui da região também estão lendo Clarice.
Essa semana recebi um convite da minha amiga Flávia lá da sala de leitura da Escola Elza para ler e palestrar um pouquinho sobre Clarice.
Quase pirei, né? Foi maravilhoso! As crianças todas quietinhas, escutando... E no final me vem um rapazinho do 6o. ano, que diz a Judite ser terrível, me perguntar: 

"-Nossa, Dona, a senhora é amiga dela?
- Eu sou!
- Você sempre a vê? Se encontra com ela?
- Não, ela morreu um ano antes de eu nascer!
- Nossa, então você é amiga dela porque você lê os pensamentos dela nos livros?
- Sim, isso mesmo! E se você quiser, ela também pode ser sua amiga!"

Diz se não é fofo demais escutar isso!
O conto lido foi "Felicidade Clandestina". Vamos ao conto:

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. 
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”. 
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. 
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim um tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. 
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. 
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança de alegria: eu não vivia, nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. 
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. 
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo. 
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. 
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. 
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! 
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. 
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. 
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. 
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. 
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Pra mim, ler Clarice é sempre um prazer! Mas espalhar Clarice, é muito melhor, Meu cinegrafista de 9 anos, Henrique (filhote lindo do meu coração), registrou a hora da leitura do conto. Atente para as duas garotas na frente da câmara, o interesse delas... Isso não tem o que pague...


Além do conto, também me apoiei na biografia escrita pela talentosa Nadia Batella Gotlib para fazer a palestra.
Me apaixonei! Saí de lá radiante, mais viva! Espero que vocês também!

LISPECTOR. Clarice. Felicidade Clandestina. In: Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro, Rocco, 1998.
GOTLIB, Nadia Batella. Clarice: Uma vida que se conta. São Paulo: Edusp, 2013.

Boas Leituras!

domingo, 20 de setembro de 2015

Projeto: Lendo Clarice


Clarice Lispector.
Quantas vezes li Clarice para ler a mim mesma? Quantas vezes estive com seus textos como se tivesse com ela própria? Quantas vezes minhas agunias se ampliaram ou diminuíram ao visitar seus textos? Mão consigo enumerar!
Clarice, pra mim, não foi. Ela ainda é, e sempre será imortalmente viva dentro de mim!
Uma amiga que me entende no âmbito mais profundo.
Para minha alegria, recebi um convite da Aninha lá do blog Leia Ana, leia para irmos visitar Clarice. Achei o projeto maravilhosos e abracei na mesma hora!
A ideia consiste em lermos todas as obras de Clarice, por ordem cronológica de publicação, sem prazo determinado de término. Apenas de início - começaremos as leituras amanhã.
Abaixo a lista de títulos de Clarice


  • Perto do coração selvagem
  • O lustre
  • A cidade sitiada
  • Laços de família
  • A maçã no escuro
  • A paixão segundo G.H.
  • A legião estrangeira
  • Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres
  • Felicidade clandestina
  • Água viva
  • Onde estivestes de noite
  • A via crucis do corpo
  • A hora da estrela
  • Um sopro de vida
  • Para não esquecer
  • A bela e a fera
  • A descoberta do mundo
Para quem quiser nos acompanhar, as obras da Clarice já estão em domínio público, portanto é muito fácil de baixá-las na internet, encontrá-las em bibliotecas ou adquirí-las num valor bastante razoável mas livrarias.Vou fazer uma postagem semanal falando das leituras que fiz de Clarice, e convido a todos a participarem dessa visita à essa grande mulher conosco.Boas Leituras